Mostrando postagens com marcador Teologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teologia. Mostrar todas as postagens

12/08/2013

PROVAÇÃO E TENTAÇÃO

(Tiago 1,12-16)

1 BEM-AVENTURADO, COROA, AMOR A DEUS                
Por que é “bem-aventurado” ou “feliz” o que “suporta” a tentação?
                Porque lhe é dada a “Coroa da Vida”.
Ideia inspirada na coroa de louros que o atleta recebia nas olimpíadas gregas. “Os atletas correm por uma coroa perecível, nós por uma imperecível” (I Co 09:25)
E, quando o Grande Pastor aparecer, vocês receberão a coroa gloriosa, que nunca perde o seu brilho (imarcescível)”. (I Pe 5:4)
E agora está me esperando o prêmio da vitória, que é dado para quem vive uma vida correta, o prêmio que o Senhor, o justo Juiz, me dará naquele dia, e não somente a mim, mas a todos os que esperam, com amor, a sua vinda.” (2 Tm 4:8)
A mesma promessa é feita para a Igreja de Esmirna no Apocalipse (2:10 - LER).
1ª CONCLUSÃO A provação visa ao prêmio, por isso é bem-aventurança. Superar a prova (guardando os mandamentos de Deus) é prova de amor a Deus “aquele que  me ama, guarda os meus mandamentos” (João 14:21 e Dt 5:10)

2 DEUS NÃO TENTA

2.1 Deus não tenta pois não deseja o mal.

Observe a diferença entre esses dois textos: II Sm 24:1 (Deus) I Cr 21:1 (Satanás)
Em outra ocasião, o SENHOR ficou muito irado com o povo de Israel e levou Davi a prejudicá-los. Deus disse a Davi: - Vá e faça a contagem do povo de Israel e de Judá. 2 Então Davi deu a Joabe, o comandante do seu exército, a seguinte ordem: - Vá com os seus oficiais por todas as tribos de Israel, do Norte ao Sul do país, e faça a contagem do povo. Eu quero saber quantos somos.  3Mas Joabe respondeu ao rei: - Que o SENHOR, nosso Deus, faça o povo de Israel cem vezes mais numeroso do que é agora, e que o senhor viva para vê-lo fazer isso! Mas por que o senhor quer fazer essa contagem?
Satanás quis criar problemas para o povo de Israel e por isso levou Davi a fazer uma contagem do povo.  2           Davi deu a Joabe e aos outros oficiais a seguinte ordem: - Vão por toda a terra de Israel, desde o Norte até o Sul, e façam a contagem do povo. Eu quero saber quantos somos.  3 Mas Joabe respondeu: - Que o SENHOR, nosso Deus, faça o povo de Israel cem vezes mais numeroso do que é agora! Ó rei, todos eles são seus servidores. Por que é que o senhor quer fazer isso e tornar culpada toda a nossa nação? 

Evolução da revelação fez com que o homem percebesse que a tentação não vem de Deus, mas de Satanás.

2.2 O pecado não vem de Deus, mas da liberdade humana quando opta pelo mal.

Assim, em Eclesiástico 15 :11 “Sobre a Liberdade humana: Não digas: "É o Senhor que me faz pecar", porque ele não faz aquilo que odeia. 12      Não digas: "É ele que me faz errar", porque ele não tem necessidade de um homem pecador. 13 O Senhor odeia toda espécie de abominação e nenhuma é amável para os que o temem 14 Desde o princípio ele criou o homem e o abandonou nas mãos de sua própria decisão. 15 Se quiseres, observarás os mandamentos: a fidelidade está no fazer a sua vontade. 16 Ele colocou diante de ti o fogo e a água; para o que quiseres estenderás a tua mão. 17 Diante dos homens está a vida e a morte, ser-te-á dado o que preferires. 18 É grande, pois, a sabedoria do Senhor, ele é todo-poderoso e vê tudo. 19 Seus olhos vêem os que o temem, ele conhece todas as obras do homem. 20 Não ordenou a ninguém ser ímpio, não deu a ninguém licença de pecar.

Salmos 7 “ 14 Vejam como os maus imaginam maldades. Eles planejam desgraças e vivem mentindo. 15 Armam armadilhas para pegarem os outros, mas eles mesmos caem nelas. 16 Assim eles são castigados pela sua própria maldade, são feridos pela sua própria violência.

Deve ser por isso que Jesus propõe umas alterações de interpretação da Lei no sermão do monte. Mateus 5
21 Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: "Não mate. Quem matar será julgado." 22 Mas eu lhes digo que qualquer um que ficar com raiva do seu irmão será julgado. Quem disser ao seu irmão: "Você não vale nada" será julgado pelo tribunal. E quem chamar o seu irmão de idiota estará em perigo de ir para o fogo do inferno.
27 - Vocês ouviram o que foi dito: "Não cometa adultério." 28 Mas eu lhes digo: quem olhar para uma mulher e desejar possuí-la já cometeu adultério no seu coração.


2.3 Tentação, gerada pelo desejo se autossuficiência (poder, riquezas, prazeres), de egoísmo. Desejo que é contrário ao projeto de Deus, por isso gera morte. Por que gera a morte? Romanos 7: 5 “Pois, quando vivíamos de acordo com a nossa natureza humana, os maus desejos despertados pela lei agiam em todo o nosso ser e nos levavam para a morte. 13 Então será que o que é bom me levou à morte? É claro que não! Foi o pecado que fez isso. Pois o pecado, usando o que é bom, me trouxe a morte para que ficasse bem claro aquilo que o pecado realmente é. E assim, por meio do mandamento, o pecado se mostrou mais terrível ainda.”
I Co 15:56 “O que dá à morte o poder de ferir é o pecado, e o que dá ao pecado o poder de ferir é a lei.”
Rm 6:23 “O Salário do pecado é a morte”

3 ATENÇÃO A LINGUAGEM
3.1 Recuperação da imagem da criação do homem, feito do pó da terra, ele é frágil.
Deus sopra o fôlego da vida e não da morte;
Deus concede vida e não tentação;
Tudo o que Ele cria e gera é bom. “E viu Deus que era bom

3.2 Palavras no gênero feminino
“desejo” ou “concupicência”     => EPITHYMIA
“pecado”                                            => HAMÁRTIA
As duas palavras no grego são femininas, por isso a linguagem utilizada pelo autor parecer descrever a sedução de uma mulher sobre um homem.
Desejo – “seduz e arrasta” Quando o homem cede gera e concebe (dá a luz) ao pecado;
Pecado – “amadurece” e gera a morte.
Ezequiel 18:10 “- Imaginem também que esse homem tenha um filho que rouba, mata e faz coisas 11 que o pai nunca fez. Esse filho come a carne dos sacrifícios oferecidos em templos proibidos e seduz mulheres casadas. 12 Engana os pobres, rouba e fica com aquilo que lhe foi dado como garantia de empréstimo. Ele vai a templos pagãos, adora ídolos nojentos 13 e empresta dinheiro a juros altos. Será que ele vai viver? Não! Não vai! Ele fez todas essas coisas vergonhosas e morrerá por causa delas. Esse filho será culpado da sua própria morte.  14 - Agora, imaginem que, por sua vez, esse filho tenha um filho. Esse filho vê todos os pecados que o pai cometeu, mas não segue o seu exemplo. 15 Não adora os ídolos dos israelitas, nem come a carne dos sacrifícios oferecidos em templos proibidos. Não seduz mulheres casadas 16 e não explora, nem rouba ninguém. Ele devolve aquilo que lhe foi dado como garantia de empréstimo. Dá comida a quem tem fome e roupa a quem está nu. 17 Ele se recusa a fazer o mal e não empresta dinheiro a juros altos. Guarda as minhas leis e obedece aos meus mandamentos. Ele não morrerá por causa dos pecados do pai. É certo que viverá.  18 O pai dele enganou, e roubou, e só prejudicou os outros. Por isso, morreu por causa dos seus próprios pecados.  19 - Mas vocês perguntam: "Por que é que o filho não sofre por causa dos pecados do pai?” A resposta é esta: é porque o filho fez o que era correto e bom. Ele guardou as minhas leis, e as seguiu cuidadosamente, e por isso é certo que viverá.”


2ª CONCLUSÃO Pecar é uma decisão única e exclusivamente humana, é nossa. Enquanto estiver fora do nós, a tentação pode ser resistida, mas se ela encontra resposta no nosso coração ai está o pecado. ? Por isso Cristo venceu a tentação, porque Nele não havia pecado. ?

24/06/2013

POR UMA FRATERNIDADE SOLIDÁRIA

OBADIAS, POR UMA FRATERNIDADE SOLIDÁRIA.
Artigo apresentado na matéria de História da Literatura Bíblica (pós graduação em Teologia Bíblica e Sistemática Pastoral do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil)

INTRODUÇÃO

O texto escolhido para o presente artigo é o Livro do Profeta Obadias. Na percepção do autor este texto, muito pouco explorado pelas comunidades eclesiásticas, é embebido de muita história, profundo em suas lições apesar de tão pouco presente nos púlpitos dos ajuntamentos cristãos.
O texto basicamente trata de uma profecia contra Edom, mas sua abrangência não se restringe somente a este povo, pois no verso 15 o dia do Senhor vem para todas as nações. Logo, qual é a mensagem de Obadias para nós hoje?
Outras questões também estão presentes em Obadias tais como; Qual é, segundo o autor, a origem das desgraças? Qual é o escândalo e a denúncia do profeta? Qual é a expectativa que o escritor tem de uma justiça divina diante das más relações entre os povos?

UM BREVE HISTÓRICO DA RELAÇÃO ENTRE ISRAEL E EDOM

Antes de entrarmos no livro de Obadias se faz necessário rememorar as origens das discórdias entre israelitas/judaítas e edomitas. Afirma SCHÖKEL (2002, p. 2224) que “segundo a tradição, a relação entre Israel e Edom remonta os irmãos gêmeos Israel e Esaú (Gn 25-27), antecessores de ambos os povos”, filhos de Isaque, filho de Abraão. Segundo Gênesis 25,23 viveram os povos que descenderam de Esaú (Edom[1]) e Jacó (Israel[2] e Judá), sendo o primeiro por vezes posto em posição submissa e por vezes rebelde em relação ao segundo. São vários os desentendimentos e embates entre os povos:
1)     Nascem os filhos gêmeos de Isaque e Rebeca, onde há a promessa que o mais novo, Jacó seria maior e subjugaria o mais velho, Esaú (Gn 25,23);
2)     Esaú vende o direito de sua primogenitura chantageado por Jacó por um prato de comida após voltar de um dia de trabalho;
3)     A despeito do desejo de Isaque, mas em direção ao que havia sido prometido no nascimento dos gêmeos, Jacó com o auxílio de sua mãe Rebeca rouba a bênção que seria dada da Esaú, o que incita o ódio deste pelo seu irmão;
4)     Anos mais tarde há a reconciliação entre os dois, contudo cada um segue seu caminho, Jacó desce ao Egito e Esaú permanece na....;
5)     Na entrada do povo de Israel na terra, vindo do Egito, este pede passagem pelo território dos edomitas, pedido que foi negado com veemência e certa ameaça (Nm 20,18.20);
6)     Sob o reinada de Saul Israel faz guerra com os povos a terra, inclusive os edomitas e sai vitorioso (1 Sm 14,47);
7)     Sob o governo de Davi, os israelitas conquistam Edom que passa a ser território anexado à Israel (2 Sm 8,13-14);
8)     Edom se rebelou contra Israel quando reinava Salomão (1Rs 11,14.25)
9)     Edom conseguiu independência quando Judá estava sendo governada por Jorão (2Rs 8,20-22);
Se não bastasse todo esse histórico de atritos entre os dois povos, a relação entre as duas nações irmãs se estremeceu para sempre quando os Edomitas se aliaram a Babilônia por ocasião da queda de Jerusalém;
1)     Israel se revolta contra a Babilônia, que reage de forma branda levando Joaquim para o exílio, mas deixando a administração com Sedecias (2Rs 24).
2)     Uma nova revolta acontece e desta vez a Babilônia não age benevolentemente e destrói completamente a Jerusalém e leva o povo ao cativeiro (2Rs 25,8-10);
Como se vê no relato bíblico há uma forte presença e participação dos edomitas a época da queda de Jerusalém assim nos conta Obadias nos versos 11 ao 14, mas em outros textos esse fato é lembrado como em Amós 1,11 “Assim diz Javé: Por três crimes de Edom e pelo quarto, eu não vou perdoar: porque perseguiram seus irmãos com a espada, sem ouvir a voz do sangue fraterno, e porque acenderam a raiva para sempre, guardando ódio eterno.[3]” No registro dos Salmos 137,7-9 percebe-se todo o rancor que ficou da relação entre as nações:

“Javé, pede contas aos filhos de Edom no dia de Jerusalém, quando diziam: “Arrasem a cidade”! “Arrasem até os alicerces”! Ó devastadora capital de Babilônia, feliz quem lhe devolver o mal que fez para nós! Feliz quem agarrar e esmagar seus nenês contra o rochedo!”

O ódio demonstrado aqui da parte de um israelita em direção a um edomita encontra reciprocidade como afirma Ezequiel sobre Edom no capítulo 35 verso 5: “Você cultivou ódio eterno e entregou os israelitas ao fio da espada, no tempo que estavam na desgraça, no dia do castigo final.” De certo os edomitas tinham também seus motivos legítimos de ódio para com seus irmãos israelitas.
Não há muitas informações sobre o escritor do livro, segundo WlLSON (2006, p. 334) “se os profetas escritores pré-exílicos de Judá podem ser discernidos somente de forma vaga nos textos, os exílicos e pós-exílicos são quase que invisíveis.” Mas acredita-se que Obadias não está entre os deportados e é um dos que ficam na terra após a destruição de Jerusalém, “muitos biblistas afirmam que Abdias foi um poeta cultual ligado ao Templo de Jerusalém antes da sua destruição” (PAZDAM apud BERGANT & KARRIS, 2010, p. 117). Sendo assim, ele foi uma testemunha ocular do que ocorreu e um que sofre na pele as conseqüências da derrota. Segundo ROSSI (2006, p. 11), o profeta “não teoriza e muito menos faz abstrações acerca da situação dolorosa que vive seu povo. Não, suas palavras estão encravadas na paisagem de dor e destruição que ele próprio com seus irmãos viveram”.

AS ORIGENS DO MAL

            No texto de Obadias a profecia sobre Edom é drástica, não haverá escapatória e a graça de Deus não os alcançará, mas qual é o motivo interno que encaminhou Edom para este cenário de desgraça?
            O primeiro motivo nos faz lembrar Provérbios 16,18 “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda.” Isto está muito claro no texto de Obadias. Edom, devido a sua posição geográfica, demonstrava uma atitude arrogante (verso 3) como se nada ou ninguém fosse capaz de alcança-lo. Como relara ROSSI (2006, p. 16) Edom “está incrustado em zona montanhosa e escarpada, e é ainda cortado por vales estreitos e profundos... é território de difícil manobra militar e suas fortalezas são, praticamente, inacessíveis”.
            Esse sentimento levando a ruína para quem o cultiva já era do conhecimento do profeta. Quando os jebuseus estavam ocupando Jerusalém fizeram pouco caso do exército de Davi, garantidos pela localização geográfica da cidade como vemos na narrativa de 2 Samuel 5,6-7:

Davi marchou com os seus homens sobre Jerusalém, contra os jebuseus que habitavam o território. Os jebuseus disseram a Davi: “Não entre aqui, porque bastam os cegos e os aleijados para o repelir”. Era a maneira de dizer que davi não entraria na cidade. Mas Davi conquistou a fortaleza de Sião, que ficou sendo a cidade de Davi.

O destino de Edom não seria diferente dos jebuseus e sua arrogância seria o que os levaria ser “a menor das nações, dentre todas a mais desprezada” (verso 2).
O segundo motivo que o profeta aponta como origem a desgraça de Edom é a violência, como relata os versos 8 até o 10:

E não é que nesse dia – oráculo de Javé – eu vou acabar com os sábios de Edom, com a inteligência da montanha de Esaú? Seus heróis, ó Tema, se acorvadarão, de modo que todo homem será eliminado da montanha de Esaú. Por causa do morticínio e da violência praticada contra seus irmão Jacó, a vergonha cobrirá você, e você será eliminado para sempre. (grifo do autor)

Como evidencia ROSSI (2006, p. 21) a “violência e o morticínio são as causas das desgraças que se abatem sobre Edom. A vergonha é a consciência tanto da culpa como da derrota merecida”. Podemos constatar, na leitura deste trecho de Obadias, a inteligência (ou sabedoria) e a coragem militar dos edomitas não foi utilizada para o bem, mas para a promoção do mal. A ajuda dos filhos de Esaú certamente foi definitiva como ressalta ROSSI (2006, p. 24) “certamente os babilônios não estavam bem informados sobre os pontos fracos de Judá. Nesse sentido, os edomitas poderiam prestar grande serviço estratégico à Babilônia”, nisto se legitima a grande cumplicidade de Edom na queda de Judá e sua sentença dada por Javé. 

O ESCÂNDALO E A DENÚNCIA DO PROFETA

            Solidariedade, esta é a palavra chave daquilo que se esperava de Edom. Apesar de todo o histórico de desentendimentos desde os patriarcas dos dois povos, é claro que a expectativa do escritor era de uma postura mais nobre dos irmãos edomitas.
Mas ao invés de solidariedade o sentimento que norteou as ações dos edomitas foi a vingança, isto é o que escandaliza do profeta como aponta ROSSI (2006, p. 15): “a violência maior não está nos atos assassinos dos exércitos da Babilônia, mas sim no povo irmão que age como inimigo”. De fato é razoável que a babilônia respondesse com toda força ao segundo levante israelita, mas a falta de solidariedade da nação irmã, a sua incapacidade de associação e ausência de qualquer sentimento fraterno constituiu num fato gerador de grande mágoa denunciada por Obadias.
Já lemos que não é só Obadias que se escandaliza com essa postura dos edomitas, mas também Amós (1,11), Ezequiel (25,12-14;35,5), se  escandalizam e denunciam o sentimento vingativo de Edom surdo ao apelo do sangue fraterno. “Nessa situação, em que a dor se faz mais forte do que nunca, é que percebemos o profeta Abdias abrindo os olhos, a fim de notarmos algo de extrema importância: a violência vem acompanhada de falta de solidariedade” (ROSSI, 2006, p. 15). PAZDAM apud BERGANT & KARRIS (2010, p. 117) nos trás a informação de que “há até uma alegação de que os edomitas incendiaram o Templo (cf. 3Edr 4,35).”

EXPECTATIVA DE UMA JUSTIÇA DIVINA

Toda essa triste história de desentendimentos entre irmãos que constatamos quando lemos a história desses dois povos desencadeia numa espiral de ódio e vingança. E como afirma ROSSI (2006, p.26) “vingança atrapalha a vida das pessoas e as destrói por dentro”. Percebe-se tanto do lado de edomitas como por parte dos judaítas uma incapacidade de esquecer, superar ou perdoar erros antigos gerando esse círculo vicioso de ódio e violência onde um se alegra com a desgraça de seu irmão.
Se observarmos há uma desproporcionalidade na reivindicação de Obadias no verso 15 de Edom ser retribuído por Deus tal fez à Judá se recordarmos que quando Davi subjugou Edom matando todos os homens de Edom nada foi feito e ninguém se levantou para defendê-los.
É possível identificar que Javé é fiel ao seu povo escolhido e não muda de lado, tal como Edom fez. Por isso nos versos 17 e 18 é apontado que “a “casa de Jacó”, que representam as tribos do Reino de Judá, e a “casa de José” que representa as tribos do Reino de Israel, serão juntas vencedoras sobre Edom, que deixará de existir” (ROSSI, p. 28). Conforme PAZDAM apud BERGANT & KARRIS (2010, p. 117) verdadeiramente experimentou a aniquilação uma vez que “depois de 450 a.C., o nome Edom desapareceu dos resgistros históricos. Durante o reinado de Herodes Magno (37-4 a.C.), entretanto, o território designado Edom recebeu o nome de Iduméia”.
Não obstante, no verso 16 a justiça divina também se aplica ao povo escolhido de Deus, vamos tomar por base a tradução da Bíblia do Peregrino que assim traduz o texto: “Assim como bebestes em meu monte santo, beberão todas as nações por sua vez, beberão, consumirão e desaparecerão sem deixar rastro.”. Segundo o comentarista da Bíblia do Peregrino, SCHÖKEL (2006, p. 2226), “podemos imaginar que o primeiro “bebestes” refere-se aos judaítas, que já beberam até o fim a taça do castigo. Edom seguirá junto com as outras nações”. Este castigo aos judaítas, assim interpreta o autor deste artigo, ser o castigo legítimo e merecido aos judaítas não só pelo afastamento do povo da vontade de Javé, mas também castigo por ter subjugado tantas vezes de maneira tão dura ao seu irmão Edom.
Assim vemos que Javé se põe fielmente ao lado do seu povo, porém não se permite ser injusto não dando a devida retribuição aos seus filhos pelo mal que causaram uns aos outros.

CONCLUSÃO

            Sem uma aplicação pastoral, para o “chão” da comunidade cristã, toda a interpretação se torna fazia. É inútil qualquer esforço exegético se este não vier acompanhado de uma hermenêutica que dê conta de comunicar a nós hoje. E quando pensamos nisto, vemos que o Livro do Profeta Obadias é de uma riqueza inesgotável para se trazer uma reflexão profunda dos relacionamentos, que não só limitaria aos relacionamentos fraternos, mas a todos os relacionamentos interpessoais para que sejam norteados pela fraternidade, solidariedade em prol da promoção da justiça em detrimento da opressão dos poderosos.
            Outro sentimento que podemos notar no escritor de Edom seria de confiança em Javé, notem que “a descrição da queda de Edom, assim como e restabelecimento de Judá e sua dominação, testemunha a fé no poder do Deus de Israel, capaz de dominar as nações e de proteger seu povo” (MACCHI apud NIHAN, MACCHI & RÖMER, 2010. p.509).
            Seja viva nas nossas mentes e corações essa mensagem por mais fraternidade e solidariedade entre os homens.
  
BIBLIOGRAFIA

BERGANT, Dianne; KARRIS, Robert J. (Org.). Comentário Bíblico. Vol. 2. 5. ed. Trad. Bárbara Theoto Lambert. São Paulo: Loyola, 2010. 448 p.;
BÍBLIA. Português. Bíblia do Peregrino. 2. ed. Tradução Bíblia do Peregrino. São Paulo: Paulus, 2006. 3055 p.;
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução CNBB. São Paulo: Paulus, 1991. 1631 p. Edição Pastoral;
RÖMER, Thomas; MACCHI, Jean-Daniel; NIHAN, Christophe (Org.). Antigo Testamento história, escritura e teologia. Trad. Gilmar Saint Clair Ribeiro. São Paulo: Loyola, 2010. 847 p.;
ROSSI, Luiz Alexandre Solano. Como Ler O Livro de Abdias Profeta da Solidariedade. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2006. 29 p.;
WILSON, Robert R. Profecia e Sociedade no Antigo Israel. São Paulo: Targumim/Paulus, 2006. 384 p.




[1] Edom, vermelho nome pelo qual é identificado o povo descente de Esaú talvez pelo fato de ser ruivo (Gn 25,25), ou ainda pela cor do guisado oferecido à ele por Jacó por ocasião da venda de sua primogenitura (Gn 25,30).
[2] Nome de Jacó que foi mudado após o episódio em Peniel (Gn 32,28).
[3] Todos os textos bíblicos deste artigo fora retirados da Bíblia Sagrada Edição Pastoral (Paulus), exceto quando mencionada outra tradução.

08/03/2013

O CÉU É AZUL PORQUE DEUS É MENINO?


            O tema deste post vem de uma historinha em que uma criança pergunta a outra o motivo da cor do céu ser azul. Depois de pensar um pouquinho ela é respondida com uma sentença “cheia” de certeza: “O céu é azul porque Deus é menino, se fosse menina seria rosa, ué!”
        Antes que você saia daqui para saber o motivo do céu ser azul eu te digo: A explicação para essa pergunta pode ser dada a partir de um fenômeno físico que ocorre na atmosfera, denominado de espalhamento de Rayleigh. Como se sabe, a radiação solar que aquece a Terra é uma luz extremamente brilhosa e branca, porém composta por várias outras tonalidades de cor, cada qual com um comprimento de onda específico. O que ocorre é que quando a luz penetra na atmosfera ela atinge os átomos de nitrogênio e oxigênio, bem como as outras partículas que compõem a atmosfera, dando origem ao fenômeno do espalhamento.
        Como sabemos, a luz é uma onda que possui vários comprimentos. Segundo o fenômeno físico do espalhamento, a luz solar é espalhada em várias direções e com várias tonalidades de cor, cada uma com um comprimento de onda específico, no entanto, a onda que possui o comprimento da cor azul é bem mais definida e eficiente do que as outras. Por esse motivo é que vemos o Sol como um disco brilhante e o restante do céu todo azul, justamente em razão do efeito que a luz provoca sobre os átomos que compõem o ar, a qual faz com que a luz seja espalhada em vários comprimentos de onda, dos quais somente percebemos a cor azul.

            Bom, mas deixando piadinhas e ciência de lado, passemos para a observação. Na historia a criança responde a pergunta dizendo que o céu é azul porque Deus é menino, devido ao fato de que essa é a imagem que geralmente temos de Deus. Deus é sempre visto como um ser masculino. Mas o que podemos extrair de elementos femininos para a compreensão de Deus? Um momentinho! Vamos deixar claro uma coisa: Deus, na verdade, não deve ser identificado com nenhuma dimensão, Ele simplesmente É; o Deus “Eu Sou”. Deus não tem sexo, mas à medida que o ser humano é a imagem e semelhança de Deus, ambos os gêneros (masculino e feminino) podem contribuir com analogias para poder dizer algo de Deus, o que nos faz ampliar o leque de atributos e características de Deus dando uma visão mais ampla do ser divino.
            A proposta aqui é uma visão que considere homem e mulher criados a imagem de Deus o que naturalmente irá refletir na dignidade da mulher na igreja e o ministério feminino. Comecemos com um pouquinho de história...
            Temos uma imagem masculina de Deus, pois Ele é Deus Pai, é Senhor, Deus Forte Varão de Guerra... Estamos, na Bíblia, em uma sociedade patriarcal em que o homem é autoridade.
            Mas se Deus é Pai ele também e Mãe, sabemos que seu Espírito consola, conforta, cuida, ensina, gera vida... Sentimentos e ações próprias do “universo feminino”.
            O Espírito Santo é a pessoa da trindade que mais carrega nas suas ações essas características e traços que foram recebidos pelas mulheres de Deus. Mas mesmo assim Ele é O EspíritO SantO, mas nem sempre foi assim.
            No Primeiro Testamento, o Espírito Santo é a ruach (do hebraico) de Deus, ruach é uma palavra do gênero feminino. No Segundo Testamento, Ele é pneuma (do grego), essa palavra é neutra (nem feminino, nem masculino). Contudo Ele ganha definitivamente traço masculino quanto a palavra neutra pneuma é traduzida para o latim spiritus que é do gênero masculino. Percebe a “mutação” ao longo da história? Ruach – palavra hebraica de gênero feminino no Primeiro Testamento; Pneuma – palavra grega de gênero neutro no Segundo Testamento; Spiritus – palavra latina de gênero masculino.
            Repito: Deus, na verdade, não deve ser identificado com nenhuma dimensão, Ele não tem sexo. E acrescento: Deus está para além de um discurso que podemos confeccionar sobre Ele, a Teologia não conseguirá esgotar uma fala sobre o Mistério e não podemos nos limitar a uma ou outra definição ou imagem de Deus. Se nos atermos a uma definição e imagem de Deus estaremos construindo um ídolo que não seja de metal, mas mental, contudo um ídolo de qualquer forma.
            O que há no universo feminino que podemos usar para realizar uma analogia e apreender sobre características de Deus?

1.      O Espírito, ou melhor a ruach de Deus cuida, protege
            O Espírito é o poder pessoal do Deus vivo que a ele pertence como se fosse a sua respiração. As ações do Espírito de Deus são as ações do próprio Deus. E quando pensamos nesse nível de cuidado lembramos do cuidado que uma mãe ou uma fêmea tem com seus filhos e filhotes respectivamente. Por isso o salmista descansa em Deus “qual criança desmamada sobre o seio de sua mãe” (salmos 131,2). Jesus falando sobre a ignorância da cidade de Jerusalém lamenta: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste!” (Mateus 23,37)
2.      O Espírito, ou melhor, a ruach de Deus gera a vida.
            Em Gênesis1,2 temos a ruach de Deus pairando sobre a face das águas. É a potência criadora, pela qual Deus cria, conserva e sustenta toda a obra da criação.
            Mais à frente, em Gênesis 2,7 vemos a ruach de Deus sendo inflada na humanidade concedendo-lhe (gerando) a vida.
            No Livro do Jó (33,4), temos o personagem principal declarando que “O Espírito de Deus me fez; o sopro do Todo Poderoso me dá vida”.
            É o sopro de Deus que gera a vida nos ossos secos em Ezequiel 37,9.
            Jesus, quando fala à Nicodemos diz: “Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito (pneuma), não pode entrar no reino de Deus”. (João 3,5) O Espírito aqui é como se fosse o “útero de Deus” para nos renascermos em novidade de vida. 
3.      O Espírito, ou melhor, a pneuma de Deus não faz distinção de homem e mulher.
            A segunda é uma mulher e, para a admiração de todos não era somente uma mulher, mas também uma mulher estrangeira (Cananéia) que pedia cura para a sua filha! E a ela Jesus disse:ó mulher, grande é a tua fé! Seja-te feito como queres. E desde aquela hora sua filha ficou sã.” (Mateus 15,28).

            Enfim, essa é a mensagem evangélica. Uma mensagem igualitária e libertadora que concede a homens e mulheres, discípulos e discípulos igual dignidade. O nosso desafio como cristão é ser submisso a Palavra de Deus que anuncia que homem e mulher foram criados a imagem e semelhança de Deus e são dotados da mesma importância. O nosso desafio é resgatar essa mensagem, incluir estas verdades no nosso discurso e, principalmente na nossa prática eclesial e da vida como um todo.
            Que Deus abençoe a todos (homens e mulheres), e hoje, em especial, parabéns as nossas mulheres, meu desejo é que a mensagem evangélica possa mudar a realidade de locais onde ainda não dê para dizer que todos, independentemente se homem ou mulheres, mas todos nós somos um e dotados de mesma dignidade. Amém!

01/11/2012

REFLEXÕES SOBRE A TEOLOGIA DA MISSÃO INTEGRAL

Esse texto é de Jorge Pinheiro em que procura fazer um resumo do que vem a ser a Teologia de Missão Integral. o Texto é um poco extenso, mas é interessante para quem deseja ter um ideia melhor sobre o que vem a ser essa Teologia nascida em berço latino-americano.


Por Jorge Pinheiro

Nesses estudos que começamos a desenvolver sobre a Teologia da Missão Integral queremos reafirmar alguns conteúdos e expor outros. Assim, começamos, à guisa de definição, afirmando que a TMI é comunicação e presença do evangelho. Com isso queremos dizer que essa teologia correlaciona comunicação e presença, sem colocar um sinal de igualdade entre essas realidades e sem declarar que necessitam sempre ser levadas a termo juntas. Na Teologia da Missão Integral, a comunicação tem conseqüências sociais porque convoca pessoas e comunidades ao arrependimento e ao amor pelos outros em todas as áreas da vida.

A Teologia da Missão Integral vê compromisso social como comunicação e presença, que tem conseqüências para a proclamação da boa nova que se dá através do testemunho da graça do Cristo. Quando há silêncio e cruzar dos braços diante dos sofrimentos do mundo, a Palavra é traída, já que nessas circunstâncias não há o que oferecer ao mundo.

A Teologia da Missão Integral tem como um de seus pilares a diaconia, que em seu sentido cristão significa serviço ao próximo. Diante da alegria pelo que Deus tem feito, ao abençoar as vidas, a Missão Integral propõe como resposta a promoção da diaconia. Nesse sentido, Missão Integral e diaconia são expressões que não podem vir separadas.

Nas primeiras comunidades cristãs, a diaconia teve característica singular de testemunho de fé por meio da vida solidária (At 2.44-45; 4.32-35), já que, como disse Paulo, "se um membro sofre todos sofrem com ele" (1Co 12.26). O fundamento dessa ação solidária repousa nos ensinos e prática de Jesus Cristo. Por isso, para a Missão Integral, o amor a Deus só é possível se este alcança o próximo (1Jo 4.20). Na prática, amar ao próximo consiste em propiciar dignidade humana e reintegração na sociedade (Mt. 9.35+). Por seu ministério e morte, Cristo assumiu a fraqueza humana e sofreu o poder de morte do mundo para, então, superá-los. Assim, a Teologia da Missão Integral desafia ao testemunho do amor de Deus, enquanto ação solidária.

A Teologia da Missão Integral é sentido e luta incondicional pela justiça, entendendo que a justificação pela graça, através da fé, não se refere apenas a fé posicional, mas existencial. É uma instrução de que falamos de Cristo na vida da comunidade de tal maneira que a justificação se transforma em vida aberta. E, assim, é fé material, política, e espiritual, já que transformação da pessoa e transformação estrutural estão correlacionadas. Ser, fazer e dizer, então, estão no coração da teologia da missão integral.


A Teologia da Missão Integral é uma teologia da transformação holística.

1. É uma teologia da centralidade em Cristo, pois a vida de serviço sacrificial de Jesus é o paradigma. Em sua vida e por meio da sua morte, Jesus estabeleceu o modelo de identificação com os excluídos e o exercício da inclusão. Na cruz, Deus revela a seriedade com que Ele olha para a justiça e reconcilia consigo integrados e excluídos, ao cumprir com os requerimentos de sua própria justiça. No caminhar com os excluídos de bens e possibilidades, serve-se no poder do Senhor por meio do Espírito e encontra-se a esperança em submeter todas as coisas a Cristo.

2. É uma teologia da graça de Deus, que concede impulso à comunicação permanente onde todo e qualquer locus é campo privilegiado. Como receptores do amor somos pessoas agraciadas pela generosidade e aceitação dos demais. Tal graça define a justiça frente à situação-limite vivida pelo povo brasileiro, não somente como contrato que deve ser honrado, mas como serviço àquele que se encontra à margem, caído.

3. É uma teologia do Espírito, um convívio com o Espírito, já que este é o sentido cristão da palavra espiritualidade. Dessa maneira, a idéia de uma vida forte, a idéia da vitalidade de uma vida criativa a partir de Deus nos leva à espiritualidade, ou seja, a uma vida espiritualizada por Deus.

Por isso, podemos dizer: as pessoas procuram a Deus porque o Espírito as atrai para si. Estas são as primeiras experiências do Espírito no ser humano. E o Espírito as atrai como um imã atrai as limalhas de ferro. O íntimo e suave atrativo de Deus é experimentado pela pessoa em sua fome de viver e em sua busca de felicidade, que nada no universo pode satisfazer ou saciar.

A espiritualidade da vida se opõe à mística da morte. Quanto mais sensíveis as pessoas se tornam para a felicidade da vida, mais sentem a dor pelos fracassos da vida. Vida no Espírito é vida contra a morte. Não é vida contra o corpo, mas a favor de sua libertação e sua glorificação. Dizer sim à vida significa dizer não à guerra e suas devastações. Dizer sim à vida significa dizer não à miséria e suas humilhações. Não existe uma afirmação verdadeira da vida sem luta contra tudo que nega a vida.

O Espírito é o acontecer da presença atuante de Deus, que penetra até o mais íntimo da existência humana. Ele atua como força de vida no ser humano e transforma aqueles que se encontram sob o senhorio de Cristo.

Cria espaço, põe em movimento, leva da estreiteza para a amplidão. Cria o horizonte e nas nossas vidas amplia o horizonte. Na experiência com o Espírito, Deus não é experimentado somente como Pessoa da Trindade, mas também como aquele espaço e tempo de liberdade onde o ser humano pode se desenvolver.

E onde está o Espírito há liberdade. Com essa experiência do Espírito, Paulo falou sobre a liberdade cristã. Mas para falar da liberdade no Espírito é necessário começar pela fé.

A fé é geralmente entendida como uma concordância formal com a doutrina da igreja ou como uma participação na fé da igreja. Mas a fé que liberta é mais do que isso, é uma fé que nos envolve pessoalmente. A fé que me faz livre não é somente a fé com a qual eu concordo, mas aquela que me leva a partir e repartir o pão e o vinho. Tal fé pessoal é sempre comunitária e o início de uma liberdade que renova inteiramente a vida e vence o caos.

Essa fé é uma experiência que não abandona aqueles que a vivenciam realmente: é libertação do medo para confiança, reviver para uma esperança viva, amor incondicional à vida.

Para a fé que parte e reparte pão e vinho, a liberdade não consiste nem na compreensão de uma necessidade histórica, nem na autonomia sobre si próprio e sobre a propriedade, mas sim no ser tocado pela necessidade do outro que sofre. Fé significa assim, posicionamento existencial, ser criativo diante dessas gentes brasileiras, com suas comunidades, com Deus e no seu Espírito. Crer leva a uma vida criativa e vivificante pelo amor. Crer, por isso, significa ultrapassar os limites da realidade determinada pelo passado marcado pela escravidão e pela exclusão e buscar as possibilidades da vida que não se realizaram. E é essa fé que livra da força do mal, da lei das obras e do poder da morte e leva a uma comunhão direta com o meu próximo e eterna com Deus. Essa é a base e o fundamento da liberdade no Espírito.

4. É teologia da imagem de Deus, e nesse sentido uma teologia para os excluídos, que como todos os humanos são portadores da imagem de Deus Criador. Pessoas e comunidades excluídas de bens e possibilidades têm conhecimentos, habilidades e recursos. Tratar tais pessoas com dignidade significa propiciar condições para que sejam arquitetos de mudança em suas comunidades. Trabalhar com elas envolve a construção de relações que conduzem a uma mudança mútua.

5. É uma teologia para a Igreja, porque Deus por sua graça tem dado as comunidades de fé o desafio da comunicação. O futuro da comunicação se define em termos de expansão do reino de Deus, capacitando as gentes para que transformem suas comunidades. As comunidades de fé devem gerar espaços e tempos de inclusividade, como fruto natural do chamado que receberam. As pessoas e mesmo as comunidades são atraídas por este fazer de amor das comunidades cristã. E é a partir daí que são impactadas pela mensagem cristã.

6. É uma teologia para o Reino de Deus, comunitária, porque a experiência de caminhar com as comunidades excluídas deixa uma interrogação sobre o que significa ser comunidade de fé. A igreja pode ser mera instituição ou organização, mas é nas comunidades de fé em Jesus que se concretizam os valores do Reino. A participação dos excluídos na vida das comunidades de fé possibilita o encontro de novas maneiras de ser igreja no contexto da cultura brasileira, ao invés de ser simples reflexo dos valores da subcultura dominante. A comunicação tem credibilidade na medida em que adota uma aproximação encarnada. Com freqüência as comunidades de fé têm-se dedicado à obtenção de dinheiro, êxito e influência. A comunidade que Jesus Cristo denominou seu pequeno rebanho faz parte do Reino de Deus. As tradições eclesiásticas não podem dificultar o que a Igreja já fez pela expansão do Reino. A igreja pode enfrentar o problema da miséria quando trabalha com os miseráveis e, a partir daí, pressiona atores sociais com a sociedade civil, os governos e o setor privado, sobre a base do respeito mútuo e o reconhecimento do papel de cada participante.

7. É uma teologia social, de apoio às transformações sociais que favoreçam os excluídos e caminhem na direção de acabar com a miséria no Brasil. Vejam de onde vierem essas ações transformadoras. Tais atividades se ampliam para incluir avanços em direção à transformação de valores, o reconhecimento da dignidade das comunidades e a cooperação em questões de justiça. Com sua presença ao lado dos excluídos, as comunidades de fé colocam-se numa posição singular que favorece o trabalho para restaurar a dignidade concedida por Deus, apresentando valores para que produzam recursos próprios e criem redes de solidariedade.

8. É uma teologia da cidadania, de consciência de direitos e deveres de cada pessoa como integrante de uma coletividade, entendendo-se essa coletividade em todas as instâncias do Reino de Deus e de sua presença no mundo. Isso pressupõe a igualdade, que transpõe barreiras de nível sócio-econômico, de etnia, de faixa etária, de sexo, de cultura, de situação civil, de deficiência física, de instituição e, também, pressupõe a unidade na pluralidade, pois trata da existência humana sobre a face da terra, e seu direito à vida, à liberdade, à propriedade, ao trabalho, à educação, à saúde, ao entretenimento e à cultura. É uma teologia por si só inclusiva, pois se contrapõe à opressão, à omissão, à rejeição e à massificação. É também uma teologia espacial, pois considera o mundo como oikos, precisando ser preservado, cuidado, adaptado, sinalizado, para usufruto e bem estar do ser humano; o que integra as demais criaturas de Deus, como parte de seus direitos e deveres, de coroa da Criação.

9. É uma teologia ecológica, que envolve o uso responsável e sustentável dos recursos da criação de Deus e a transformação das dimensões morais, intelectuais, econômicas, culturais e políticas da vida. Isto inclui a recuperação de um sentido bíblico de mordomia. O conceito bíblico do sábado recorda que se deve por limites ao consumo. Os cristãos integrados no Brasil devem usar sua riqueza e seu poder a serviço dos demais. É um compromisso de trabalhar para libertar os ricos de sua escravidão ao dinheiro e ao poder. A esperança de tesouros no céu livra da tirania de Mamon.

10. É uma teologia do amor, da paz e da reconciliação, porque num mundo de conflitos e tensões étnicas tem-se falhado na tarefa de construir pontes. A Teologia de Missão Integral trabalha pela reconciliação entre comunidades divididas etnicamente, entre integrados e excluídos, entre opressores e oprimidos. Reconhece o mandato de falar por quem não pode clamar por si mesmo e, também, a necessidade de defensoria tanto para tratar da injustiça estrutural, como para resgatar o próximo necessitado. Essa teologia clama por outra globalidade, solidária, pois a globalização excludente é o domínio de culturas que têm o poder de promover seus produtos, tecnologias e imagens além de suas fronteiras. A luz deste fato, as comunidades de fé com sua rica diversidade desempenham um papel singular por ser uma comunidade verdadeiramente global.

E, por fim, nessas reflexões da Teologia da Missão Integral para nosso continente, diremos que é uma teologia da solidariedade latino-americana, que faz a crítica da globalização selvagem e chama pessoas e comunidades cristãs à uma solidariedade com a América Latina, construída ao redor de propostas e ações de justiça e paz. A Teologia da Missão Integral considera que os países desenvolvidos devem reconhecer seu papel no desenvolvimento de uma economia global solidária, onde estão incluídas novas formas de pensar e agir em relação ao continente latino-americano.

A Teologia da Missão Integral reconhece o valor do planejamento, da organização, da avaliação e de outras ferramentas similares, mas afirma que estas devem estar a serviço do processo de construção de relações e valorização dos excluídos latino-americanos, sejam eles pessoas ou comunidades.

Dessa maneira, a Teologia da Missão Integral faz um chamado à solidariedade latino-americana, entendendo que pessoas e comunidades cristãs devem ajudar aqueles que clamam pelos Direitos Humanos essenciais e apoiar aqueles que se dedicam a melhorar as condições de vida e possibilidades das populações na América Latina.

Conheça outros artigos do site de Jorge Pinheiro.

30/10/2012

COLOQUE O SEU DEDO AQUI



        Nessa caminhada na Teologia não foram poucos os colegas que se sentem meio perdidos entre a fé e a razão. Não raro e ouvir: “estou em crise” ou “a gente não quer ficar abalado, mas fica”. Isso quando não descambam para uma total incredulidade ante às verdades das Escrituras Sagradas. Mas sinceramente não penso que o culpado pelos abalos sejam as novas informações, descobertas, os novos conteúdos da crítica textual a afins. O que os abala é a fragilidade da experiência com Deus.
        Creio que nestes momentos o caminho não é questionar o conhecimento novo. O caminho é visitar novamente nossas experiências que nos fundaram na fé cristã. Afinal, cremos em Deus por causa dos grandes milagres que Ele pode operar ou cremos nele pelo que Ele simplesmente é?
        Vamos imaginar o seguinte: se a Bíblia não relatasse qualquer ato sobrenatural realizado pelas mãos divinas, ainda creríamos nEle com a mesma disposição? Por que somos tão dependentes destas manifestações sobrenaturais para crer? Em muitos grupos cristãos tradicionais há certo orgulho de nossos “cultos racionais”, mas há tanta dificuldade de lidar com essas coisas. Vamos a Tomé!
        Notem que Tomé não queria viver baseado na experiência dos outros! Ele queria suas próprias experiências, seu "chão" teológico tinha que ser concreto, palpável. Ele não estava predisposto a crer no relato dos discípulos, queria provar ao vivo e a cores. Tomé, até podemos assim considera-lo, era racionalista!
        Mas não era positivista! Seu racionalismo o levou a uma experiência concreta, corpórea. Contudo, ao chegar neste degrau, ao invés de optar por um positivismo exacerbado, Tomé "volta atrás" e faz uma declaração tão teológica que nem parece ter saído da boca da mesma pessoa: "Senhor meu e Deus Meu!"
        O Racionalismo de Tomé o levou a um encontro sagrado com o Deus que em todo tempo andou do seu lado, mas Tomé não conseguia reconhecer! Seu racionalismo o levou a tocar este Deus e por tocar, por ter uma experiência física, fez uma declaração sobrenatural!
        Teologia é ciência. Ela tem métodos para investigação, tem regras, mas é uma ciência especial.  Gosto de pensar e assim creio que devemos procurar sermos capazes de estar "sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês" (1 Pedro 3:15) Contudo, a razão por vezes (e não poucas vezes) apresenta limitações nos assuntos tocantes a fé, mas ai, comungo ao convite de Calvino “quando nos cessa a razão, rendamo-nos ao mistério da fé”. Concordo com ele, afinal fé “é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos.” (Carta aos Hebreus 11,1)
        Se a gente conseguir traçar em nossos caminhos a lógica da teologia do Tomé, acredito que muitos conflitos entre fé e razão serão diminuídos.

25/09/2012

CONFUSÃO “DOS INFERNOS”


            Vamos voltar com o tema “dos infernos” que se originou no post “O "LADRÃO", O "BISPO", O "MISSIONÁRIO" E O "APÓSTOLO"” que se desmembrou em “ORGULHO DOS "INFERNOS"” e “IMPRUDÊNCIA DOS "INFERNOS"” (este, inclusive, sendo o 2º post mais lido deste Blog!).

            Como o texto abaixo em questão tem também uma equivocada interpretação devido a uma pequena confusão de tradução fica nomeado o post de CONFUSÃO “DOS INFERNOS”. Vamos ao texto, vou usar a versão da tradução de João Ferreira de Almeida (Revisada da IBB, Imprensa Bíblica Brasileira), posto que esta seja a que mais é conhecida:


            Este texto é muito semelhante ao texto do post ORGULHO “DOS INFERNOS” que trata do Rei de Tiro e do resultado que deu o seu orgulho (Livro do Profeta Ezequiel 28:1-19). Mas nesse texto o Rei em questão é o Rei da Babilônia – outro Rei orgulhoso e cheio de si.
            Esse texto é dito que Deus “se compadecerá de Jacó” (vr 1, ou seja, de Israel que estava cativo em terras babilônicas) e dará ao povo “descanso do seu trabalho... e da dura servidão com que te fizeram servir” (vr 3). Quem mata a charada é o versículo 4, nele se diz claramente de quem está se falando “contra o Rei daBabilônia” que irá ter “derrubada até o Seol a tua pompa” (vr 11). Vale lembrar que “Seol” ou “Xeol” é o lugar para onde irá todos os mortos, na concepção judaica antiga, tendo sido maus ou bons. Ou seja o Rei da Babilônia morrerá, no versículo 15 isso é repetido “levado serás ao Seol”. E, seguindo o texto todo essa queda do império e morte do Rei seria vergonhosa “tu és lançado da tua sepultura, como um renovo abominável”. 
            Mas o que efetivamente fez com que muitos pensassem se tratar do Diabo nesse texto?  A questão é que algumas várias traduções seguiram a Vulgata (tradução da ICAR para o latim) que traduz "estrela da manhã" como Lúcifer. E já se tornou comum na cristandade entender que Lúcifer é o Diabo. Está ai a nossa CONFUSÃO “DOS INFERNOS”. Rsrs
            Por fim, meus irmãos e amigos, não quero com estes posts dizer que "Diabo não existe" ou coisa parecida, mas chamo a atenção para o tanto de lições importantes para nosso dia-a-dia que temos pela interpretação correta desses textos. As vezes colocamos ações, palavras e atitudes na "conta do Diabo" quando, na verdade, são erros nossos nascidos do nosso egoísmo que nos fazem verdadeiros "demônios humanos". Bom, vale o aviso, o reforço a respeito do orgulho, afinal “Deus resiste aos soberbos; dá, porém, graça aos humildes.” (Tiago 4:6) Vou até finalizar este post com uma das figuras que coloquei no ORGULHO "DOS INFERNOS"...
"Estes são meu cachorro, meu gato e meu ego"
P.S.: Já tirando uma dúvida: Quanto a "linguagem celeste" presente no texto quando se refere ao Rei da Babilônia vejam porque isso acontece no texto bíblico dessa forma no post ORGULHO "DOS INFERNOS", ok? ;)