Esse texto é de Jorge Pinheiro em que procura fazer um resumo do que vem a ser a Teologia de Missão Integral. o Texto é um poco extenso, mas é interessante para quem deseja ter um ideia melhor sobre o que vem a ser essa Teologia nascida em berço latino-americano.
Por
Jorge Pinheiro
Nesses
estudos que começamos a desenvolver sobre a Teologia da Missão Integral
queremos reafirmar alguns conteúdos e expor outros. Assim, começamos, à guisa
de definição, afirmando que a TMI é comunicação e presença do evangelho. Com
isso queremos dizer que essa teologia correlaciona comunicação e presença, sem
colocar um sinal de igualdade entre essas realidades e sem declarar que
necessitam sempre ser levadas a termo juntas. Na Teologia da Missão Integral, a
comunicação tem conseqüências sociais porque convoca pessoas e comunidades ao
arrependimento e ao amor pelos outros em todas as áreas da vida.
A
Teologia da Missão Integral vê compromisso social como comunicação e presença,
que tem conseqüências para a proclamação da boa nova que se dá através do testemunho
da graça do Cristo. Quando há silêncio e cruzar dos braços diante dos
sofrimentos do mundo, a Palavra é traída, já que nessas circunstâncias não há o
que oferecer ao mundo.
A
Teologia da Missão Integral tem como um de seus pilares a diaconia, que em seu
sentido cristão significa serviço ao próximo. Diante da alegria pelo que Deus
tem feito, ao abençoar as vidas, a Missão Integral propõe como resposta a
promoção da diaconia. Nesse sentido, Missão Integral e diaconia são expressões
que não podem vir separadas.
Nas
primeiras comunidades cristãs, a diaconia teve característica singular de
testemunho de fé por meio da vida solidária (At 2.44-45; 4.32-35), já que, como
disse Paulo, "se um membro sofre todos sofrem com ele" (1Co 12.26). O
fundamento dessa ação solidária repousa nos ensinos e prática de Jesus Cristo.
Por isso, para a Missão Integral, o amor a Deus só é possível se este alcança o
próximo (1Jo 4.20). Na prática, amar ao próximo consiste em propiciar dignidade
humana e reintegração na sociedade (Mt. 9.35+). Por seu ministério e morte,
Cristo assumiu a fraqueza humana e sofreu o poder de morte do mundo para,
então, superá-los. Assim, a Teologia da Missão Integral desafia ao testemunho
do amor de Deus, enquanto ação solidária.
A
Teologia da Missão Integral é sentido e luta incondicional pela justiça,
entendendo que a justificação pela graça, através da fé, não se refere apenas a
fé posicional, mas existencial. É uma instrução de que falamos de Cristo na
vida da comunidade de tal maneira que a justificação se transforma em vida
aberta. E, assim, é fé material, política, e espiritual, já que transformação
da pessoa e transformação estrutural estão correlacionadas. Ser, fazer e dizer,
então, estão no coração da teologia da missão integral.
A Teologia da Missão Integral é uma
teologia da transformação holística.
1.
É uma teologia da centralidade em Cristo,
pois a vida de serviço sacrificial de Jesus é o paradigma. Em sua vida e por
meio da sua morte, Jesus estabeleceu o modelo de identificação com os excluídos
e o exercício da inclusão. Na cruz, Deus revela a seriedade com que Ele olha
para a justiça e reconcilia consigo integrados e excluídos, ao cumprir com os
requerimentos de sua própria justiça. No caminhar com os excluídos de bens e
possibilidades, serve-se no poder do Senhor por meio do Espírito e encontra-se
a esperança em submeter todas as coisas a Cristo.
2.
É uma teologia da graça de Deus, que
concede impulso à comunicação permanente onde todo e qualquer locus é campo
privilegiado. Como receptores do amor somos pessoas agraciadas pela
generosidade e aceitação dos demais. Tal graça define a justiça frente à
situação-limite vivida pelo povo brasileiro, não somente como contrato que deve
ser honrado, mas como serviço àquele que se encontra à margem, caído.
3.
É uma teologia do Espírito, um
convívio com o Espírito, já que este é o sentido cristão da palavra
espiritualidade. Dessa maneira, a idéia de uma vida forte, a idéia da
vitalidade de uma vida criativa a partir de Deus nos leva à espiritualidade, ou
seja, a uma vida espiritualizada por Deus.
Por
isso, podemos dizer: as pessoas procuram a Deus porque o Espírito as atrai para
si. Estas são as primeiras experiências do Espírito no ser humano. E o Espírito
as atrai como um imã atrai as limalhas de ferro. O íntimo e suave atrativo de
Deus é experimentado pela pessoa em sua fome de viver e em sua busca de
felicidade, que nada no universo pode satisfazer ou saciar.
A
espiritualidade da vida se opõe à mística da morte. Quanto mais sensíveis as pessoas
se tornam para a felicidade da vida, mais sentem a dor pelos fracassos da vida.
Vida no Espírito é vida contra a morte. Não é vida contra o corpo, mas a favor
de sua libertação e sua glorificação. Dizer sim à vida significa dizer não à
guerra e suas devastações. Dizer sim à vida significa dizer não à miséria e
suas humilhações. Não existe uma afirmação verdadeira da vida sem luta contra
tudo que nega a vida.
O
Espírito é o acontecer da presença atuante de Deus, que penetra até o mais
íntimo da existência humana. Ele atua como força de vida no ser humano e
transforma aqueles que se encontram sob o senhorio de Cristo.
Cria
espaço, põe em movimento, leva da estreiteza para a amplidão. Cria o horizonte
e nas nossas vidas amplia o horizonte. Na experiência com o Espírito, Deus não
é experimentado somente como Pessoa da Trindade, mas também como aquele espaço
e tempo de liberdade onde o ser humano pode se desenvolver.
E
onde está o Espírito há liberdade. Com essa experiência do Espírito, Paulo
falou sobre a liberdade cristã. Mas para falar da liberdade no Espírito é
necessário começar pela fé.
A
fé é geralmente entendida como uma concordância formal com a doutrina da igreja
ou como uma participação na fé da igreja. Mas a fé que liberta é mais do que
isso, é uma fé que nos envolve pessoalmente. A fé que me faz livre não é
somente a fé com a qual eu concordo, mas aquela que me leva a partir e repartir
o pão e o vinho. Tal fé pessoal é sempre comunitária e o início de uma
liberdade que renova inteiramente a vida e vence o caos.
Essa
fé é uma experiência que não abandona aqueles que a vivenciam realmente: é
libertação do medo para confiança, reviver para uma esperança viva, amor
incondicional à vida.
Para
a fé que parte e reparte pão e vinho, a liberdade não consiste nem na
compreensão de uma necessidade histórica, nem na autonomia sobre si próprio e
sobre a propriedade, mas sim no ser tocado pela necessidade do outro que sofre.
Fé significa assim, posicionamento existencial, ser criativo diante dessas
gentes brasileiras, com suas comunidades, com Deus e no seu Espírito. Crer leva
a uma vida criativa e vivificante pelo amor. Crer, por isso, significa
ultrapassar os limites da realidade determinada pelo passado marcado pela
escravidão e pela exclusão e buscar as possibilidades da vida que não se
realizaram. E é essa fé que livra da força do mal, da lei das obras e do poder
da morte e leva a uma comunhão direta com o meu próximo e eterna com Deus. Essa
é a base e o fundamento da liberdade no Espírito.
4.
É teologia da imagem de Deus, e
nesse sentido uma teologia para os excluídos, que como todos os humanos são
portadores da imagem de Deus Criador. Pessoas e comunidades excluídas de bens e
possibilidades têm conhecimentos, habilidades e recursos. Tratar tais pessoas
com dignidade significa propiciar condições para que sejam arquitetos de
mudança em suas comunidades. Trabalhar com elas envolve a construção de
relações que conduzem a uma mudança mútua.
5.
É uma teologia para a Igreja, porque
Deus por sua graça tem dado as comunidades de fé o desafio da comunicação. O
futuro da comunicação se define em termos de expansão do reino de Deus,
capacitando as gentes para que transformem suas comunidades. As comunidades de
fé devem gerar espaços e tempos de inclusividade, como fruto natural do chamado
que receberam. As pessoas e mesmo as comunidades são atraídas por este fazer de
amor das comunidades cristã. E é a partir daí que são impactadas pela mensagem
cristã.
6.
É uma teologia para o Reino de Deus,
comunitária, porque a experiência de caminhar com as comunidades excluídas
deixa uma interrogação sobre o que significa ser comunidade de fé. A igreja
pode ser mera instituição ou organização, mas é nas comunidades de fé em Jesus
que se concretizam os valores do Reino. A participação dos excluídos na vida
das comunidades de fé possibilita o encontro de novas maneiras de ser igreja no
contexto da cultura brasileira, ao invés de ser simples reflexo dos valores da
subcultura dominante. A comunicação tem credibilidade na medida em que adota
uma aproximação encarnada. Com freqüência as comunidades de fé têm-se dedicado
à obtenção de dinheiro, êxito e influência. A comunidade que Jesus Cristo denominou
seu pequeno rebanho faz parte do Reino de Deus. As tradições eclesiásticas não
podem dificultar o que a Igreja já fez pela expansão do Reino. A igreja pode
enfrentar o problema da miséria quando trabalha com os miseráveis e, a partir
daí, pressiona atores sociais com a sociedade civil, os governos e o setor
privado, sobre a base do respeito mútuo e o reconhecimento do papel de cada
participante.
7.
É uma teologia social, de apoio às
transformações sociais que favoreçam os excluídos e caminhem na direção de
acabar com a miséria no Brasil. Vejam de onde vierem essas ações
transformadoras. Tais atividades se ampliam para incluir avanços em direção à
transformação de valores, o reconhecimento da dignidade das comunidades e a
cooperação em questões de justiça. Com sua presença ao lado dos excluídos, as
comunidades de fé colocam-se numa posição singular que favorece o trabalho para
restaurar a dignidade concedida por Deus, apresentando valores para que
produzam recursos próprios e criem redes de solidariedade.
8.
É uma teologia da cidadania, de
consciência de direitos e deveres de cada pessoa como integrante de uma
coletividade, entendendo-se essa coletividade em todas as instâncias do Reino
de Deus e de sua presença no mundo. Isso pressupõe a igualdade, que transpõe
barreiras de nível sócio-econômico, de etnia, de faixa etária, de sexo, de
cultura, de situação civil, de deficiência física, de instituição e, também,
pressupõe a unidade na pluralidade, pois trata da existência humana sobre a
face da terra, e seu direito à vida, à liberdade, à propriedade, ao trabalho, à
educação, à saúde, ao entretenimento e à cultura. É uma teologia por si só
inclusiva, pois se contrapõe à opressão, à omissão, à rejeição e à
massificação. É também uma teologia espacial, pois considera o mundo como
oikos, precisando ser preservado, cuidado, adaptado, sinalizado, para usufruto
e bem estar do ser humano; o que integra as demais criaturas de Deus, como
parte de seus direitos e deveres, de coroa da Criação.
9.
É uma teologia ecológica, que
envolve o uso responsável e sustentável dos recursos da criação de Deus e a
transformação das dimensões morais, intelectuais, econômicas, culturais e
políticas da vida. Isto inclui a recuperação de um sentido bíblico de mordomia.
O conceito bíblico do sábado recorda que se deve por limites ao consumo. Os
cristãos integrados no Brasil devem usar sua riqueza e seu poder a serviço dos
demais. É um compromisso de trabalhar para libertar os ricos de sua escravidão
ao dinheiro e ao poder. A esperança de tesouros no céu livra da tirania de
Mamon.
10.
É uma teologia do amor, da paz e da
reconciliação, porque num mundo de conflitos e tensões étnicas tem-se
falhado na tarefa de construir pontes. A Teologia de Missão Integral trabalha
pela reconciliação entre comunidades divididas etnicamente, entre integrados e
excluídos, entre opressores e oprimidos. Reconhece o mandato de falar por quem
não pode clamar por si mesmo e, também, a necessidade de defensoria tanto para
tratar da injustiça estrutural, como para resgatar o próximo necessitado. Essa
teologia clama por outra globalidade, solidária, pois a globalização excludente
é o domínio de culturas que têm o poder de promover seus produtos, tecnologias
e imagens além de suas fronteiras. A luz deste fato, as comunidades de fé com
sua rica diversidade desempenham um papel singular por ser uma comunidade
verdadeiramente global.
E,
por fim, nessas reflexões da Teologia da Missão Integral para nosso continente,
diremos que é uma teologia da solidariedade latino-americana, que faz a crítica
da globalização selvagem e chama pessoas e comunidades cristãs à uma
solidariedade com a América Latina, construída ao redor de propostas e ações de
justiça e paz. A Teologia da Missão Integral considera que os países desenvolvidos
devem reconhecer seu papel no desenvolvimento de uma economia global solidária,
onde estão incluídas novas formas de pensar e agir em relação ao continente
latino-americano.
A
Teologia da Missão Integral reconhece o valor do planejamento, da organização,
da avaliação e de outras ferramentas similares, mas afirma que estas devem
estar a serviço do processo de construção de relações e valorização dos
excluídos latino-americanos, sejam eles pessoas ou comunidades.
Dessa
maneira, a Teologia da Missão Integral faz um chamado à solidariedade
latino-americana, entendendo que pessoas e comunidades cristãs devem ajudar
aqueles que clamam pelos Direitos Humanos essenciais e apoiar aqueles que se
dedicam a melhorar as condições de vida e possibilidades das populações na
América Latina.
Conheça outros artigos do site de Jorge Pinheiro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário