Leia uma das mais lindas orações já feitas e depois vamos pensar um pouquinho sobre ela:
Esse com certeza, a semelhança do
Salmo 23 (abordado no post “O SENHOR É MEU PASTOR E MEU HOSPEDEIRO”), é um dos
textos mais conhecidos de toda a cristandade. Interessante ter em mente que no
texto correlato dessa passagem no Evangelho de Lucas 11:1-4 narra-se que essa
oração vem do desejo dos discípulos em quererem aprender a orar tal como Jesus
orava.
Isto é curioso, pois naquela época
quando um discípulo pedia ao seu mestre para que lhe ensinasse uma oração, esta
continha toda a cosmovisão (visão de mundo) que o mestre tinha. Ou seja, a
oração que o mestre ensinava carregava toda a sua concepção de idéias a cerca
da sua fé, da verdade que ele passava. É importante que tenhamos essa
informação em mente para fazer a leitura desse texto.
A outra característica notória da
oração é a forte presença da tradição do Êxodo (ou exodiana) veja que a oração contém
elementos da experiência do povo de Israel nos acontecimentos da sua libertação:
santidade cultual ao nome de Deus revelado a Moisés; reinado de Deus pela
aliança na terra entregue; vontade de Deus expressada pela Lei; o maná (pão)
diário dado no deserto; a presença de provações/tentações. Um apontamento do
comprometimento que Jesus tinha com essa tradição que pode ser usada como chave
de interpretação para esta passagem.
“Não sejam hipócritas”
(05-08) Jesus antes
de ensinar propriamente uma oração ele ressalta o fato de como uma oração deve
ser feita e, baseados no texto, podemos dizer que ele deve ser sobretudo algo
que carrega sinceridade, que realmente venha da intimidade, do coração daquele
que ora para o coração de Deus com total espontaneidade.
“Pai
Nosso” (09) É
maravilhoso nos apercebermos aqui da generosidade de Jesus. Sim, generosidade.
Ele que foi o que primeiro chamou Deus, que ao longo da história recebeu os
mais diversos nomes, de Abba (Pai) compartilha ou nos proporciona que tenhamos
o mesmo grau de intimidade dele com Deus e também o chamarmos de “Pai”. Por
isso é “Pai NOSSO” e não um “MEU Pai”. Por isso que o evangelista João (1:12)
diz “Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus”. Jesus aqui nos dá o exemplo de
generosidade.
“Santificado
seja o teu nome” (09)
O nome de Deus é santificado quando usado não como magia* ou para promover a
opressão, mas para liberdade.
“venha
o teu Reino” (10)
Aqui é manifesta a vontade da construção do Reino, reino este o qual todo
discípulo e discípula de Cristo é embaixador. Reino que já está entre nós e que
se dará (se realizará) plenamente no porvir. Mas um Reino que se vive já
através de seus seguidores que devem procurar fazer a vontade de Deus aqui “na
terra como no céu”. Homens e mulheres que tem a fé que a vontade de Deus é
“boa, perfeita e agradável” (Cartas aos Romanos 12:2) para as suas vidas.
“pão
de cada dia” (11) Cristo
aqui aborda a providência divina, que na comunidade dos seus seguidores se dá
através do amor, da fraternidade através da partilha. Por isso que na igreja de
Jerusalém descrita no Livro dos Atos dos Apóstolos “não havia pessoas necessitadas” (Atos dos Apóstolos 4:34).
Aqui gostaria de
destacar esse pão que mais tarde aparece no ensino de Paulo sobre a Ceia (1ª Coríntios 11:28-30). Quando o apóstolo diz que “quem come e bebe, come e bebe para sua própria condenação, se não discernir o corpo do Senhor.” (29) este
corpo é a comunidade cristã, os membros que compõe a igreja de acordo com o
ensinamento anterior do capítulo 10:17 “Pois nós, embora muitos, somos um sópão, um só corpo; porque todos participamos de um mesmo pão.” A Ceia do Senhor,
realizada entre os irmãos de Corinto tinha se tornado um palco para ostentação,
um foco de discriminação e contrastes gritantes em que os mais abastados se
reuniam entre si para realizar verdadeiras comilanças a despeito de outros
irmãos, mais pobres, que não tinham o que comer e passavam fome. A falta de
amor, a falta de fraternidade, solidariedade entre os irmãos (o corpo, o pão)
gera fraqueza, doença e morte (no caso de Corinto literalmente) na Igreja.
“Perdoa
nossas dívidas” (12) Neste
momento Jesus evoca a Lei do Ano do Jubileu descrita no Livro do Deuteronômio 15:1-11, tradição que tratamos mais detalhadamente no post “A HISTÓRIA DA SALVAÇÃO E A MISSÃO INTEGRAL DA IGREJA”. E temos nesse ponto uma exortação a
prática do perdão mútuo.
“não nos deixeis cair em tentação”
(13) Neste novo
êxodo, a tentação é superada pela força do Espírito Santo, pela fraternidade e
comunhão “suportando [dando suporte, consolo, apoio] uns aos outros” (carta aos
Efésios 4:1-4). Aliado a este pedido segue outro bem semelhante: “livra-nos
do mal” ou do
maligno, como em outras traduções. Jesus, antes mesmo de dar início ao seu
ministério venceu o mal (ou maligno) por ocasião da tentação sofrida no deserto
(como relata Mateus 4:1-11). Ele venceu o mal que há no mundo (Evangelho de João16:33), é nele que encontramos força para vencer o mal.
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* magia - Quando pela manipulação de palavras e/ou coisas se alcança um favor de algo ou alguma coisa superior.
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