03/07/2012

POMPA E CIRCUNSTÂNCIA - PARTE 1

Mais uma leitura do protestantismo evangélico brasileiro, na mesma linha do post "O 'ladrão', o 'Bispo', o 'Missionário' e o 'Apóstolo".
          

     Eu gostaria de pensar com vocês dois textos. Um é encontra-se em Isaias 1:10-19 e o outro em Apocalipse 3:14-20

           Isaías 1:10 “Autoridades de Jerusalém, escutem o que o SENHOR está dizendo! Moradores da cidade, dêem atenção ao ensinamento do nosso Deus! 11 O SENHOR diz: "Eu não quero todos esses sacrifícios que vocês me oferecem. Estou farto de bodes e de animais gordos queimados no altar; estou enjoado do sangue de touros novos, não quero mais carneiros nem cabritos. 12 Quando vocês vêm até a minha presença, quem foi que pediu todo esse corre-corre nos pátios do meu Templo? 13 Não adianta nada me trazerem ofertas; eu odeio o incenso que vocês queimam. Não suporto as Festas da Lua Nova, os sábados e as outras festas religiosas, pois os pecados de vocês estragam tudo isso. 14 As Festas da Lua Nova e os outros dias santos me enchem de nojo; já estou cansado de suportá-los. 15 "Quando vocês levantarem as mãos para orar, eu não olharei para vocês. Ainda que orem muito, eu não os ouvirei, pois os crimes mancharam as mãos de vocês. 16 Lavem-se e purifiquem-se! Não quero mais ver as suas maldades! Parem de fazer o que é mau 17 e aprendam a fazer o que é bom. Tratem os outros com justiça; socorram os que são explorados, defendam os direitos dos órfãos e protejam as viúvas." 18 O SENHOR Deus diz: "Venham cá, vamos discutir este assunto. Os seus pecados os deixaram manchados de vermelho, manchados de vermelho escuro; mas eu os lavarei, e vocês ficarão brancos como a neve, brancos como a lã. 19 Se forem humildes e me obedecerem, vocês comerão das coisas boas que a terra produz.”

            Apocalipse 3:14 “- Ao anjo da igreja de Laodicéia escreva o seguinte: "Esta é a mensagem do Amém, da testemunha fiel e verdadeira, daquele por meio de quem Deus criou todas as coisas. 15 Eu sei o que vocês têm feito. Sei que não são nem frios nem quentes. Como gostaria que fossem uma coisa ou outra! 16 Mas, porque são apenas mornos, nem frios nem quentes, vou logo vomitá-los da minha boca. 17 Vocês dizem: 'Somos ricos, estamos bem de vida e temos tudo o que precisamos.' Mas não sabem que são miseráveis, infelizes, pobres, nus e cegos. 18 Portanto, aconselho que comprem de mim ouro puro para que sejam, de fato, ricos. E comprem roupas brancas para se vestir e cobrir a sua nudez vergonhosa. Comprem também colírio para os olhos a fim de que possam ver. 19 Eu corrijo e castigo todos os que amo. Portanto, levem as coisas a sério e se arrependam. 20 Escutem! Eu estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa, e nós jantaremos juntos.”

     Penso , depois de ler esses dois textos, que Deus tem dificuldades com pompas e circunstâncias. Isso está muito claro em Isaias, em que Ele se mostra farto dos adornos todos das Festas Litúrgicas de Israel e em Apocalipses, quando Ele diz que vomitaria os arrogantes de Laodicéia. Sabemos que “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tg 4:6).

     Por outro lado, vemos que também o homem tem dificuldades com simplicidade. Vemos que a religiosidade provoca um distanciamento de Deus a relação, o movimento vai paralisando, vai ficando estático, as coisas vão sendo embonecandas, e vai ficando nas coisas, ao invés de focar em Deus. A simplicidade da revelação vai dando lugar a um sofisticado aparato de coisas, coisas que são postas à frente da revelação e já não mais se têm acesso a Presença Real de Deus.

     Isso chega no tempo de Cristo, quando você lê Jesus expulsando os comerciantes do Templo (João 2: 16)“E disse aos que vendiam pombas: - Tirem tudo istodaqui! Parem de fazer da casa do meu Pai um mercado!” Mercado = Negócio e Negócio é Negação do ócio; Culto é ócio Êxodo 05:01 “deixa o meu povo sair aodeserto para me adorar” ócio no sentido de que não é “pisar o barro e construir a casa” o trabalho pesado do Egito. Mas é o espaço onde as coisas acontecem de maneira prazerosa, por amor, dedicação, entrega, mas também pragmática (“com ordem e decência”)

     Qualquer negação desse ócio é negócio que vai conflitar com a própria idéia do Evangelho que se pauta pela graça (favor não merecido). Onde estão as músicas em que se ouve "nós", "servir", "socializar", "compartilhar"? Hoje só ouvimos "eu", "conquistar", "dominar", "possuir"... O Evangelho está hoje sendo apresentado como um produto e, sendo produto, necessita de uma boa embalagem (foca-se no exterior e não no interior). A divindade apresentada (que não pode ser o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo) é um ser que oferece coisas, bens em troca das "ofertas sacrificiais" (sempre financeiras). A vida passa a ser secundária, pois não é o seu ser, sua existência, sua integridade ou virtude, seu caráter que marcam a sua vida, mas o sucesso visto pelo que você tem - a prosperidade (na dinâmica que, se você tem é abençoado, se você não tem é desgraçado - coitado de Jesus que não tinha nem "onde repousar a sua cabeça"!)  


     Isso acontece com a Igreja no seu casamento com o Estado após a “conversão” de Constantino. Ela passa a ter grande poder temporal e se apaixona por este poder. Rígidas estruturas são levantadas e sólidas hierarquias são estabelecidas.   

     E chega nos nossos tempos também, quando essa religiosidade carente de simplicidade gera uma espiritualidade baseada no fetiche. “FETICHE – Objeto que é prestada adoração ou que é considerado comotendo poderes sobrenaturais”. Nisto o protestantismo evangélico brasileiro se ‘catolizou’ ou se ‘umbandizou’ (assumiu meio que de forma sincrética aspectos do catolicismo e da umbanda). Quem lembra de, quando pequeno, ao passar uma ambulância via-se um católico fazer uma cruz com os dedos e dizer “Cruz Credo!”; bom, o “está amarrado em nome de Jesus” é o “Cruz Credo” evangélico. Recentemente foi preso um ‘Pai de Santo’ por estelionato, pois prometia ‘trazer a pessoa amada em 3 horas’; bom, qual é a diferença dele para a flor da Igreja XXXX que vende a flor do amor que vai melhorar a vida afetiva do fiel... (!?!?). E por ai vai: é a “toalhinha molhada de suor do ‘Apostolo’ Fulano de Tal”... o “óleo ungido de Israel” a “água do Rio Jordão”. Todos eles dizendo que ali reside um poder vindo de Deus. São templos transformando fé em negócio, fazendo da fé uma coisa. A fé que era a simples e magnífica revelação de Deus ao homem.
     
     Sobre os objetos: Jesus toma o pão e o vinho e dá graças (agradece) por eles, mas não transmite poder a eles o pão continua um pão e o vinho continua vinho. Jesus trabalha os objetos como instrumentos de comunicação para falar de verdades profundas, verdades espirituais. No caso, da mesma forma que o trigo foi moído, triturado para ser para nós pão e a uva teve de ser pisada para nos dar o doce sabor do seu suco, assim foi Cristo moído, triturado, pisado para nos dar a Salvação. Ele morreu em nosso lugar. A religião trabalha os objetos como intermediação entre os devotos e as divindades e, por isso, só os especialistas da religião A ou B (os sacerdotes) podem manusear os objetos. No Evangelho qualquer um tem acesso ao sagrado, ou seja, a Deus e qualquer um tem acesso às bem-aventuranças espirituais.

     Se você tem desenvolvido algum tipo de espiritualidade baseada no fetiche, em nome de Jesus de Nazaré, deixe-se ser transformado pelo Espírito Santos. “Se o Filho do Homem os libertar, você de fato serão livres”. Ele é “o Caminho, a Verdade e a Vida” e se você conhecer “a Verdade, a Verdade vos libertará”.

     Temos então a necessidade de superar a religiosidade e pela simplicidade da Palavra de Deus, pela simplicidade do Evangelho conhecer “a boa, perfeita e agradável vontade de Deus” para nossas vidas.  (CONTINUA...)

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